FRANÇOIS OZON
O cinema sobre a perversidade do francês Ozon

Com apenas 32 aninhos, e uma cara de anjo, bem comportado, François Ozon já horrorizou platéias púdicas com seu retrato de família em "Sitcom". O seu cinema tem nitidamente uma forte tendência a tratar polêmicas que vão desde a violência juvenil à coleção de perversões humanas. Com produções abaixo dos 2 milhões de dólares, está com dois filmes sendo lançados simultaneamente nos Estados Unidos, e mais um já editado para sair do forno este ano.

"Crimal Lovers" faz uma mistura de tablóide com conto de fadas buscando elementos grotescos: dois adolescentes assassinos (Natacha Regnier e Jeremie Renier) caem nas mãos de uma espécie de Ogro interpretado por Miki Manojlovic (lembra-se do Pequeno Polegar de Perrault?) da floresta. Já "Water Drops on Burning Rocks" é baseado em uma peça escrita pelo genial Rainer Fassbinder, que não por acaso, como Ozon, adorava abordar as absurdidades humanas. Neste filme, ele seguiu um esquema teatral, mantendo na linguagem cinematográfica, elementos do teatro como a distância dos planos imposta ao olhar do espectador.

Apesar de ser considerado uma criança mimada pelo franceses, Ozon é na verdade um cineasta que mantém um estilo formal e conceitual muito próprios e muito produtivo. Nesta entrevista, fala deste estilo, sobre a manipulação do público, das comparações com Fassbinder e de seus últimos trabalhos.

(Francesca Azzi)

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indieWIRE >> Eu li que "Criminal Lovers" surgiu de um estranho casamento entre notícias de tablóides e o conto de fadas "Hansel e Gretel", poderia falar como juntou estas coisas?

François Ozon >> De fato, acho que os contos de fadas e as notícias diárias têm muito em comum por causa do seu lado obscuro e de seus detalhes horríveis. Eu não quis seguir a corrente atual do cinema francês que pega acontecimentos atuais e torna isto um clássico com um tratamento socialmente responsável, como Bertrand Tavernier faz. Quero ir em outra direção. Quero fazer um filme de gênero e usar o conto de fadas como instrumento para revelar os personagens de uma forma diferente.

iW>> O início o filme dá uma sensação deste naturalismo-realismo francês como "A Vida Sonhada dos Anjos". Mas a medida que o filme avança, fica mais estilizado, mais parecido com seu primeiro filme "See the Sea" e com "Sitcom". Isto foi intencional para o desenvolvimento de um estilo?

Ozon >> A história foi toda reorganizada na edição. No primeiro rascunho, haviam duas partes, o assassinato do garoto e a fuga para floresta. No roteiro original, estava claro que a primeira parte era mais naturalista porque os lugares também eram como a escola e a casa dos personagens.

iW >> Você acha que pode subverter o romantismo e ao mesmo tempo indulgenciá-lo?

Ozon >> Acho que depende da mente do espectador porque há dias que quando se assiste a um filme, você cai direto naquele mecanismo emocional que é colocado a você. Outras vezes, você vê tudo com um olhar irônico.

iW >> E sua intenção?

Ozon >> Sabia que estava jogando com o grotesco, mas mesmo aí pode haver algo em movimento. Acho que muitos diretores de cinema sabem o que é o bom gosto e ficam nos limites dele e das boas regras. Mas acho que temos que forçar estes limites e tentar coisas que talvez não funcionem tão bem no modo clássico.

iW>> Parece que ambos os filmes tratam as pessoas como crianças. Todos estão num estágio inicial do desenvolvimento sexual.

Ozon >> Certamente em "Criminal Lovers", mas em "Water Drops" é um pouco mais perverso do que isto. Está mais próximo do sadomasoquismo.

iW>> "Water Drops" é um filme diferente de seus outros trabalhos...

Ozon >> Eu quis manter os diálogos bem teatrais e ter certeza de que as pessoas se dariam conta de estar assistindo a uma adaptação de uma peça escrita. Por isso eu enquadrei tantas cenas como num palco, estáticas e com planos abertos. Queria trabalhar com a noção de distância, colocando o público em um certo nível. Talvez porque esta história seja emocionalmente muito próxima de mim, quis colocar alguma distância entre mim e a história. Acho que o teatro no cinema provoca uma reação interessante no espectador. Gosto de ver filmes que colocam questões: estou no cinema ou no teatro? Estou me identificando com estas pessoas ou não? O texto teatral do filme abre estas questões o tempo todo.

iW>> Você achou que filmar neste estilo teatral é restritivo?

Ozon >> Gosto de impor limites para trabalhar. Eu preciso de um desafio, senão não me acho no trabalho. Era um desafio e tanto, a tarefa de pensar como seriam filmados os diálogos. Eu me vejo como um diretor de cinema que é melhor com a ação do que com as palavras.

iW>> Você sentiu alguma pressão, em termos de ampliar sua carreira, ao adaptar o último trabalho não realizado do grande Rainer Fassbinder?

Ozon >> Não penso em termos da minha carreira. Nunca pensei em me comparar com Fassbinder. É um tributo à Fassbinder. Não tentei conscientemente fazer um filme a maneira dele.

iW>> A crítica está dizendo que é uma réplica do estilo Fassbinder.

Ozon >> Então nunca viram Fassbinder com cuidado porque acho que ele teria feito este filme bem diferente. Há um ponto de vista francês definitivo no texto alemão.

iW >> Ao final destes três filmes, você achou que está aprendendo?

Ozon >> Espero que sim. Acho que estou aprendendo, sempre tento algo novo. Estou aprendendo a ajustar o relacionamento que o público tem com meus filmes. Estou começando a entender mais como "Criminal Lovers" é difícil para alguns espectadores. Se fosse fazer este filme novamente, eu o faria diferente.

iW >> O que você faria?

Ozon >> Eu começaria o filme, descrevendo a fascinação que Alice tem com Said, e não no relacionamento entre Luc e Alice. Desta forma, eu colocaria Alice como a personagem central, porque me parece que as pessoas não a entendem, e permanecem indiferentes a ela. Se ela fosse apresentada desde o início como alguém apaixonada ou obcecada ou conectada a alguém, talvez ficasse mais fácil identificá-la. Ela ficou muito perversa e manipuladora.

iW >> Você está dizendo que está aprendendo a manipular melhor o público?

Ozon >> Não estou certo se isto é manipular, mas estou aprendendo melhor como apertar o botões que alcançam o público. Acho que é um tipo de manipulação.

iW >> Conseguir financiamento ficou fácil agora?

Ozon >> Não, muito difícil porque "Criminal Lovers" não foi muito bem. Vendeu internacionalmente, mas não fez grandes negócios. Na França, acham que estou fazendo muitos filmes. Acham que sou uma criança mimada. Mas, na verdade, sempre fiz filmes com baixos orçamentos e sempre abaixei seus custos. Para este último filme ("Sous le Sable") começamos filmando em 35mm e tivemos que terminar em 16mm porque o dinheiro acabou. Nosso próximo filme deverá ser em vídeo digital.

iW>> Sério?

Ozon >> Não, não sei, talvez. Se começasse a trabalhar em DV, estaria fazendo sete filmes por ano como Fassbinder.

Por Anthony Kaufmann


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:: Lynne Ramsay ::
A diretora escocesa do elogiado "Ratcatcher" fala sobre o seu último filme "Morvern Callar". Estrelado pela atriz inglesa Samantha Morton, para Ramsay o filme é sobre uma geração perdida e menosprezada, uma juventude sem cidadania.

:: Takashi Miike ::
O diretor japonês, conhecido por seus filmes de terror diz nesta entrevista sobre sua liberdade de criação e como o público é para ele um mistério.

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Diretor dos polêmicos "Veneno" e "Safe" cai no mainstream com "Longe do Paraíso" acompanhando de sua musa, Julianne Moore, mas sem deixar o fôlego experimental. Aqui ele comenta sobre como encontrar emoção no artificial, ultrapassar baixos orçamentos e correr riscos.

:: Godfrey Reggio ::
O gigante solitário, Reggio, fala de seu novo filme que encerra a famosa trilogia Qatsi, "Nagoyqatsi", um contundente hino à técnica.

:: Claude Miller ::
Conhecido como o cineasta que sempre fala de crianças, e suas desventuras, o francês Claude Miller lança nos EUA, "Alias Betty". Nesta entrevista, Miller explica porque gosta da complexidade feminina, da personagem parecida com Patricia Highsmith, do quebra-cabeças que é seu novo filme.

::Raja Amari ::
Intelectualmente articulada, a tunisiana Raja Amari estréia na direção de longas com "Satin Rouge" - sobre uma dona de casa, víuva, que dá uma reviravolta na vida através da dança do ventre. Amari afirma que há uma tendência das mulheres cineastas fazerem filmes sobre mulheres.

:: Neil LaBute ::
Mestre das relações imponderáveis e frias em filmes como "Na Companhia de Homens", o diretor Neil LaBute sai da ótica sexista e cai no mainstream com o romântico "Possessão", com a holly girl, Gwyneth Paltrow.

:: Michel Gondry ::
Gondry, que já foi aclamado pelos seus originais videoclipes, estréia na direção com "Human Nature", um filme que mistura ingenuidade, perversões e realismo. Aqui ele fala sobre como faz uso do conceito da palavra estúpido, sobre Fritz Lang, e sobre seus personagens nojentos.

:: Zhang Yimou ::
O premiado diretor chinês revela como treinou a nova atriz, Don Jiez, para o papel de uma menina cega em seu filme, a comédia naturalista "Happy Times" e sobre seu dom de descobrir talentos como Gong Li. E ainda sobre sua fixação com o cinema e sua preferência por tragédias.

:: Julio Medem ::
O diretor basco, do conceituado "Os Amantes do Círculo Polar", fala nesta entrevista sobre o seu novo filme "Lucía y El Sexo": do processo de ensaio dos atores, de sua preferência por histórias circulares e das filmagens e a fotografia feitas com uma nova câmera digital.

:: John Sayles ::
O eclético diretor americano, que já dirigiu e escreveu tanto filmes sobre conflitos sindicais, raciais e sociais quanto sobre aliens, vêm trazendo sua originalidade para o cinema americano que para ele é marcado pela simplificação. Ele fala sobre seu último filme "Sunshine State".

:: Hal Hartley ::
Ícone do cinema indie americano, ele quase frustrou-se em sua tentativa de mergulhar no cinemão de grandes estúdios em "No Such Thing". Mas, ao contrário de muito diretores do mundinho independente, manteve-se firme em seu propósito de continuar sendo Hal Hartley.

:: Mira Nair ::
A diretora indiana que estudou teatro no ambiente intelectual de Harvard e transitou do documentário para a ficção para explorar a força aglutinadora da familía em "Um Casamento à Indiana" , filme vencedor do Leão de Ouro em Veneza 2001.

:: Peter Bogdanovich::
O diretor americano que nos últimos anos tem se dedicado mais a crítica e as pesquisas sobre o cinema lança "The Cat's Meow". O filme foi inspirado numa história contada por Orson Welles sobre William Hearst, seu barco, uma fim de semana e algumas figuras hollywoodinas...

:: Todd Field ::
Ele é um ator que dirige filmes há dez anos. Nesta entrevista ele fala sobre seu filme "Entre Quatro Paredes", que tem os atores principais Sissy Spacek e Tom Wilkinson concorrendo ao Oscar 2002.

:: Robert Altman ::
Em plena forma em seus 76 anos, o diretor americano tem recebido prêmios e elogios por seu último filme "Gosford Park". Além de receber o Globo de Ouro de Melhor Diretor e três prêmios no New York Film Critics, Altman não pára.

:: Michael Haneke ::
O diretor austríaco de "A Professora de Piano" revela: "uma das coisas mais importantes para um cineasta é usar a fantasia do espectador. O público tem que fazer suas próprias cenas, e qualquer coisa que eu mostre significa diminuir a fantasia do espectador".

:: Danis Tanovic ::
A experiência de fazer documentários na guerra da Iugoslávia ele aproveitou no seu primeiro longa de ficção: "Terra de Ninguém". O filme ganhou cerca de 15 prêmios internacionais e foi escrito em 14 dias, filmado em 26 e editado em 12.

:: Guillermo del Toro::
Ele já trabalhou de forma independente e para grandes estúdios. Sempre fazendo filmes de terror e ação como o último "A espinha do Diabo". E ele resume: "tudo que eu quero nesta vida é que as pessoas que não gostem de nada em meus filmes, culpem somente a mim por isso".

:: Richard Linklater ::
Ele dirigiu seguidamente dois filmes muito diferentes: "Waking Life" é uma viagem filosófica em animação e "Tape", um filme digital sobre a vingança e a traição. Nesta entrevista ele fala como é bom trabalhar num filme como se fosse o último.

:: Jean-Pierre Jeunet ::
Nem mesmo seu diretor entende o sucesso estrondoso de "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain". Para ele é apenas um pequeno filme com uma história positiva sobre a generosidade.

:: Patrice Chéreau ::
O diretor de "A Rainha Margot", fala de "Intimidade" seu polêmico e sexual novo filme premiado no Festival de Berlim. E mais sobre emoção, sexo, diálogo e como é trabalhar em inglês.

:: David Lynch ::
Um homem de bem com suas idéias, um dos mais originais cineastas da atualidade fala do abstrato, místico e estranho último filme: "Mulholland Drive".

:: Brad Anderson ::
Diretor de "Próxima Parada Wonderland", vendido para a Miramax em 98 por seis milhões de dólares, fala dos dois filmes absolutamente distintos que esta lançando: a comédia "Happy Accidents" e o suspense "Session 9".

:: Alison Anders ::
A diretora indie americana utilizou sua própria experiência para fazer um filme sobre estupro. O filme é "Things Behind the Sun", foi feito em digital e estreou no último Festival de Sundance.

:: Kiyoshi Kurosawa ::
O diretor cult mistura estilos e faz uma espécie de novo gênero de terror japonês. Seu filme “Cure” de 1997 está sendo considerado um dos melhores lançamentos de 2001 nos EUA.

:: Tom Tykwer ::
O diretor, escritor e compositor alemão, autor do badalado "Corra, Lola, Corra", fala de seus filmes "The Princess and the Warrior" e de "Heaven", baseado num roteiro do mestre Krzysztof Kieslowski.

:: Tran Anh Hung::
Com sua conversa mansa, o super-articulado diretor vietnamita fala sobre seu último filme "As Luzes de um Verão". Além disto, conta sobre suas ecléticas fontes de inspiração, sobre o que o separa de Wong Kar-wai, e sobre sua identidade nacional, ou a falta dela.

:: Peter Greenaway ::
Numa entrevista bombástica o diretor inglês fala sobre seu último filme "8 Mulheres e Meia", sobre o puritanismo americano, necrofilia, e muito mais.

:: Allan Cumming & Jennifer Jason Leigh ::
A dupla de atores dirige, atua e produz "The Anniversary Party", um filme sobre as dificuldades dos relacionamentos.

:: István Szabó ::
Diretor de "Mephisto" volta às telas com 100 anos de história húngara em "Sunshine".

:: Wayne Wang ::
Diretor consagrado abre o jogo e fala de pornografia, cinema digital, experimental e independente com base no seu esperado último filme "The Center of the World".

:: Christopher Nolan ::
Ele explica tudo sobre o filme cult do momento=MEMENTO.

:: Jafar Panahi ::
"O Círculo" de Jafar Panahi coloca mais uma vez em evidência cineastas iranianos e sua maneira humanista de abordar as coisas da vida.

:: Wong Kar-Wai ::
Diretor fala de seu último filme,"Amor à Flor da Pele", suas influências latinas e sobre o boom do cinema asiático no mundo.

:: Stephen Daldry ::
O inglês Daldry, que vem do teatro, estréia nos cinemas com o sucesso de Billy Eliot.

:: Amos Gitai ::
O diretor israelense ordena o caos em 'Kippur", seu mais recente filme.

:: Darren Aronofsky ::
Depois do indie "PI", ele está de volta com outro cult: "Requiem For a Dream".

:: Lars Von Trier ::
Ele se revela na escuridão falando de "Dancer in The Dark".

:: François Ozon ::
O cinema sobre a perversidade do francês Ozon.

:: John Waters ::
Expert em auto-promoção, ele é uma espécie de dândi pós-moderno que agrada grandes estúdios mas preserva a alma indie. Fala de "Cecil B. Demented".

:: Abbas Kiarostami ::
"O Vento nos Levará": diretor iraniano nos dá esperança.

:: Zhang Yang ::
Novo expoente do cinema asiático, fala de "Banhos".

:: Alison Maclean ::
Diretora canadense é aclamada com seu filme " O Filho de Jesus" que traz atores revelação.