Foto do filme
BE WITH YOU de Nobuhiro Doi - 29/12/2005
É cafona tipo ombreira, tipo pochete, mas segura bem suas duas horas de duração graças ao charme do trio de atores principais.
Bernardo Krivochein (Rio)


“Be With You” marcou a minha primeira aventura no território do “Pure Love” asiático. Sendo apaixonado especialmente por exploitations japoneses, havia muito pouco de atração imediata num filme romântico baseado num best-seller com uma trama que remetia diretamente a farofas americanas tipo “Como se fosse a primeira vez”, "Ghost", "Em algum lugar do passado" e sabe lá o que mais. Calha que não somente eu estava corretíssimo em minhas suspeitas como havia muito em "Be With You" para apetecer meu paladar que gosta de um bom abuso dos limites.

"Pure Love" é uma categoria de filmes asiáticos obviamente românticos. Simplesmente novelões das oito, melodramas que vão além do padrão Glória Perez de apelação. Da mesma maneira que no J-Horror, os Neo-Filmes de Yakuza, as adaptações de mangá se enquadraram no movimento da "hyperviolence" por abusarem do moralmente aceitável, esses dramas românticos tornam-se "Pure Love" pelo catálogo de heróis virtuosos e mocinhas destemidas motivados por um sentimento concreto e inabalável. Da mesma maneira que o espectador precisa de estômago de ferro para sobreviver a um exemplar "hyperviolence", o espectador muito mole já está chorando em 15 minutos de filme: os planos são lindos, os personagens são adoráveis, as falas são poéticas e profundas como se retiradas daquele calendariozinho de pano que decorava o quarto de sua prima e, como poderíamos esquecer, a trilha-sonora de piano que se intensifica após cada jura de amor e durante o romântico beijo.

Durante os 20 minutos iniciais de "Be With You", desacostumado com o território em que estava pisando e admitindo tudo como um mero requentamento das bobagens românticas ianques, eu estava não somente irritado como profundamente ofendido. A música emocionante não parava nunca, a emoção não parava, o filme era ostensivamente fofo, a criancinha era fofa, o drama do pai era triste e romântico, e caso "Be With You" fosse uma pessoa, ela estaria apontando uma arma para a cabeça da minha mãe, dizendo: "goste de mim ou eu a mato!". O filme estava enlouquecidamente "over", exagerado, uma apelação generalizada. Acontece que "Be With You" estava me desafiando do modo que poucos filmes conseguem ainda fazer: indo contra a corrente estética atual, o filme não apenas apostava em um formato e conteúdo antiquados - "Be With You" se esbaldava neles. Calha que não apenas o filme conseguiu me conquistar, como eu tive que me controlar para não acabar chorando - uma tarefa difícil, porém cumprida. Era isso que o filme queria de mim - me fazer chorar - mas ele não conseguiria tão fácil, não senhor. Pelo menos comigo, quando assisto um bom momento de susto ou "gore", me choco, mas começo a rir (não "gargalhar") comigo mesmo porque o filme me fez de trouxa e conseguiu causar o efeito desejado, ou seja, o filme funcionou. A mesma coisa aconteceria comigo em "Be With You" a cada cena de emoção exagerada: eu começava a rir porque "Be With You", muito escrotamente, estava me tocando fundo e o trocadilho sexual sujo aqui tá valendo, porque o negócio tava baixo.

Veja se essa sinopse não é uma previsão de longos períodos de lágrimas catarrentas por duas horas: A mãe de Yuji, um menino de 6 anos de idade, e esposa de Takumi, um homem com um tumor cerebral que limita seus esforços físicos, falece. Pai e filho são deixados para se virarem sozinhos, tentando superar a perda. Takumi sente-se um pai incapaz por sua deficiência e Yuji se culpa pela morte da mãe. Yuji ainda acredita na promessa que Mio, sua mãe, fez antes de falecer: que retornaria durante a estação das chuvas. Quando a época chega, Mio magicamente retorna, porém sem memória alguma de seu passado. Cabe a família reunida redescobrir aquilo que os unia, ainda que brevemente.

Ou leia assim: "Diretor distribui paulada no público. Público chora".

Não consigo enfiar essa história na minha cabeça: "Be With You" vai muito além mesmo de onde qualquer romance americano, que já são apelativos, sequer ousa chegar; aliás, o filme apela mais do que "Olga". BEM mais do que "Olga". Mas mesmo no exagero há um equilíbrio, porque - aí está a chave - a história não é grandiloqüente, tampouco as atuações, nem os valores de produção, nem a fotografia e o roteiro se desenrola com extrema tranqüilidade, o que dá espaço para distribuir a altíssima carga de sacarina uniformemente. O segredo da receita está nas mãos do cozinheiro. Agora o filme - que não pôde participar da corrida pelo careca cabeludo 2006 - será refilmado com Jennifer Garner no papel de Mio. Sem querer agourar, mas o que chama a atenção em "Be With You" não é sua trama - que é derivativa - mas a falta de vergonha na cara da Toho de fazer um filme tão escandalosamente adorável/detestável. A versão americana de "Be With You" tem tudo para se tornar um troço cafona de dar dó. Não que o japonês original não seja. Aliás, é: "Be With You" é cafona tipo ombreira, tipo pochete, mas segura bem suas duas horas de duração graças ao charme do trio de atores principais: Yuko Takeuchi como Mio, Shido Nakamura como Takumi e Akashi Takei como Yuji. Esse é o filme deles, não tenha dúvidas - eles produzem uma energia que não permitem o filme cair no buraco do insuportável (porém, certamente "Be With You" o será para o fã de um cinema que tenha um mínimo de sobriedade) e a presença de cena de cada um é uma delícia para o espectador, criando personagens que - choque! engasgo! surpresa! - realmente nos importam.

E não é que o filme queira disfarçar seus defeitos (na maioria das vezes, ele só aumenta a música e nos força a perdoar qualquer inconsistência técnica ou de conteúdo): adiando a misteriosa origem de Mio - ou da mulher desmemoriada que aparenta ser a agora mãe-zumbi -"Be With Me" tem como clímax um flashback recorde de 15 minutos, não para solucionar o mistério, veja você (a casualidade com que os personagens aceitam a situação do além-túmulo é um pouquinho perdoável graças a reação da secretária num almoço com Mio), mas para trazer o romance de Mio e Takumi a um ciclo completo: não há uma cena sequer durante esses 15 minutos que não seja estrategicamente concebida para a produção em massa de soro caseiro. Se faço soar frio é porque é frio, mas em nenhum momento estou dizendo que não funciona.

Relembrando o filme, me arrependo do esforço que fiz para resisti-lo. De repente você fica tão capturado na idéia de não se deixar abater por produtos cinematográficos que consideram o espectador um imbecil previsível (e mesmo assim, eles não estão errados) que transfere essa resistência para filmes que, independente da motivação que os materializaram, realmente estão funcionando. E "Be With You" sua muito para conseguir agradar. Foi uma das experiências cinematográfica das mais desafiadoras: o filme tentando me por a nocaute a qualquer custo e eu, tendo que agüentar as bofetadas. Se nocauteado eu não fui, ainda assim saí de "Be With You" um estrago que só.


"Ima, ai ni yukimasu", Japão, 2004. 119 mins. Direção: Nobuhiro Doi. Estrelando: Yuko Takeuchi, Shido Nakamura, Akashi Takei, Karen Miyama, Yosuke Asari.

Site oficial: www.ima-ai.com